A eliminação da selecção portuguesa tem corrido a imprensa Mundial, destacando sobretudo a forma defensiva e pouco organizada que a selecção fez transparecer no jogo frente à Espanha.
Mas outros aspectos têm prejudicado o trabalho de Carlos Queiroz (e porque não dizer que não tem sido ele a complicá-los?).
Depois de uma fase de Apuramento sofrível num grupo sem grandes rivais, Portugal qualifica-se para o play-off da zona Europa em segundo lugar, atrás da Dinamarca – que demonstrou um futebol cansado neste Mundial – e à frente da Suécia, sem que tenha ganho qualquer jogo a adversários directos.
No Play-off, Raúl Meireles, médio do F.C.Porto tornou-se no jogador talismã de Queiroz, ele que era o jogador mais utilizado apesar da fraca época realizada ao serviço da sua equipa. R.Meireles acabou mesmo por fazer o golo da vitória frente à Bosnia-Herzgovina, que qualificou definitivamente Portugal para a fase final do Mundial.
Após este primeiro susto e sob o estigma de uma qualificação sofrível, Carlos Queiroz tem vindo a observar alguns jogadores portugueses – e brasileiros que inclusivé foram abordados pelo seleccionador para adquirirem dupla nacionalidade, como os gémeos Rafael e Fábio da Silva do Manchester United. Carlos Queiroz suprime, ainda na fase de Apuramento a falta dum matador, adquirindo Liedson, com 31 anos, para ser o número 9 da selecção.
Na hora de fazer as suas primeiras escolhas para o Mundial, há alguns jogadores importantes com problemas físicos que o impedem de levar ao Mundial os seus melhores 23: Rúben Micael, revelação da Liga Europa ao serviço do Nacional, ou o extremo Varela, eram opções válidas para o seleccionador que acabaram lesionados aquando da convocatória. A estes dois, juntou-se Bosingwa, que levou uma época fustigada por lesões, ele que seria titular indiscutível no lado direito da defesa portuguesa.
Assim sendo, Carlos Queiroz faz uma pré-convocatória de 50 jogadores (!) no dia 1 de Maio de modo a dar a conhecer aos portugueses quais os jogadores que observou ao longo do ano. Sensivelmente duas semanas mais tarde, anuncia uma lista final de 24 atletas com algumas surpresas muito contestadas. Desde já dois guarda-redes que pouco jogaram no ano que passou – Beto e Daniel Fernandes, de qualidade duvidosa, uma mão cheia de defesas centrais – Zé Castro e Ricardo Costa os mais contestados e o “recuperável” Pepe, que esteve metade da época sem competir, a contas com uma grave lesão no joelho. No meio campo, a surpresa era a não convocação de João Moutinho, capitão do Sporting e um dos mais utilizados na fase de Apuramento. Fábio Coentrão era o segundo lateral esquerdo, após muita pressão dos media, face à boa época ao serviço do campeão Benfica. O ataque resumia-se a duas peças – Liedson, o presumível titular e Hugo Almeida, deixando de fora Nuno Gomes, que realizou poucos jogos ao serviço do seu clube, ou Makukula, que fez uma época excelente na Túrquia.
Na lista oficial apresentada à FIFA, de 30 jogadores, encontravam-se ainda Rúben Amorim e Manuel Fernandes (que nem fazia parte dos primeiros 50 nomes apresentados pela Federação aquando da primeira convocatória). A Federação Portuguesa pediu desculpas pelo lapso, pois embora não citasse o nome de Manuel Fernandes na convocatória, este nome estava definitivamente na lista dos 7 “reservas”, embora no site oficial da Federação este “lapso” nunca havia sido corrigido.
Para o estágio de preparação, Carlos Queiroz levou os seus 24 jogadores de onde teria de cortar um elemento. À partida, essa escolha recairia sobre Zé Castro ou Ricardo Costa, caso Pepe não estivesse em condições de competir, acabando mesmo por ter sido Zé Castro o preterido. Contudo, o estágio começa mal, com duas semanas de trabalho, apenas nove jogadores estavam disponíveis na selecção, dos quais três guarda-redes, dois defesas esquerdos, Pepe, na recta final da sua recuperação, Liedson e os dois jogadores que faziam parte das dúvidas – Ricardo Costa e Zé Castro. Não é surpreendente, então, que um empate a zero no primeiro jogo amigável de preparação com Cabo Verde se tivesse verificado naquela fase, em que a equipa estava cansada dos campeonatos e pouco entrusada entre si.
As exibições foram melhorando ao longo do Estágio e a vitória sobre Moçambique reflectiu já uma equipa trabalhadora, com Coentrão a assumir o papel de defesa esquerdo, até então pertencente a Duda, o guarda-redes inequivocamente destinado a Eduardo e Deco e Pedro Mendes a terem um papel decisivo no meio campo. Havia ainda a dúvida relativa à escolha de defesa direito – Paulo Ferreira ou Miguel – ambos com uma má preparação física fruto do baixo ritmo competitivo de toda uma época, e a quem seria entregue o ataque, pois Hugo Almeida arrancara melhores exibições que Liedson.
A uma semana do Mundial, vitória de Portugal sobre os Camarões em jogo de preparação, – considerada uma das melhores equipas Africanas em competição, ao nível da Costa do Marfim, mas que acabaria por vir a desiludir neste Mundial. Portugal, contudo, fez uma exibição sólida e perspectivava-se uma vitória sobre a Costa do Marfim em pleno Mundial.
Contudo, surge o primeiro caso em pleno Mundial: surgem nos jornais desportivos que Ruben Amorim estaria a caminho da África do Sul, pois havia problemas com um jogador da selecção e cuja identidade não seria revelada até à chegada do jogador do Benfica ao estágio em África. Nani era o visado, que aparentemente teria deslocado o o ombro e era dado como irrecuperável para a competição por Carlos Queiroz. Rúben Amorim faz um treino na selecção e entra a 15 minutos do fim do jogo com a Costa do Marfim, num jogo sem qualquer brilho. Carlos Queiroz passou “um atestado de imcompetência” aos restantes 11 jogadores que tinha no banco, quando a sua 25ª opção passou a suplente nº1, quando com apenas um treino físico entrou num jogo por decidir. Ao mesmo tempo, Nani chegava a Portugal afirmando que estaria “recuperado em quatro dias”, isto é, que estaria disponível para disputar o jogo frente à Coreia do Norte. Surge então aqui o primeiro caso de indisciplina dentro do grupo.
A partir daqui surgiram algumas críticas de dentro do balneário: Deco reprovou o “comportamento” de Queiroz e um dia depois, os três jornais desportivos de Portugal anunciavam que Deco estava lesionado no lado esquerdo da perna – o Record dizia que era no tornozelo, a bola, dizia que era na anca, o Jogo dizia que era no pé. O que é certo é que Deco não mais jogou na competição após este incidente.
Tal como no caso de Nani, no caso de Deco a Federação Portuguesa manteve-se inoperante sem satisfazer a “curiosidade” ou dar qualquer tipo de explicação acerca do caso.
À medida que os casos iam aparecendo e sendo camuflados pela Federação, dentro de campo Portugal goleia a Coreia do Norte num jogo histórico e que bateu todas as estatísticas do Mundial e das aparições de Portugal neste tipo de competições. Carlos Queiroz tinha conquistado grande parte dos portugueses que o criticavam com uma segunda parte de luxo que garantiu a qualificação de Portugal para a fase seguinte. Cristiano Ronaldo, estrela maior da companhia, tem a humildade de entregar o prémio de melhor em campo a Tiago, que acabou por fazer 2 golos e uma assistência naquela que foi a melhor exibição do jogador ao serviço da selecção.
O jogo do Brasil foi apenas para cumprir calendário, registando-se, mais uma vez, um 0-0, num jogo em que Portugal voltou a reflectir os problemas ofensivos de outrora – apenas tinha marcado num dos jogos do Mundial, mas era a equipa com mais golos marcados e zero golos sofridos na competição, o que lhe daria um estatuto de candidata.
Após um primeiro jogo que custou uma derrota, a Espanha viria ainda a qualificar-se em primeiro lugar no Grupo H, o que lhes conferia a possibilidade de disputar o jogo frente a Portugal, segundo do Grupo G. Após três jogos em que o árbitro foi sul-americano (inclusivamente frente ao Brasil, o árbitro foi mexicano), no quarto jogo da selecção e no primeiro jogo de mata-mata, como celebrizou Scolari, foi um árbitro argentino quem o apitou. Numa língua falada por uma das equipas – o castelhano – e conhecendo-se a rivalidade Messi-Cristiano Ronaldo. E foi o próprio Cristiano Ronaldo o jogador mais castigado! Com a fama de “batoteiro” e de se atirar para o chão, Ronaldo levou pancada um jogo inteiro, e apenas lhe foi assinalada uma falta (!) num jogo inteiro. Portugal nunca foi tão pouco protegido numa fase final, mesmo quando com essas cores jogou um dos melhores do Mundo.
Para culminar o desfecho da partida, e após uma primeira hora de jogo bastante sólida onde a equipa espanhola estava totalmente controlada pela organização defensiva portuguesa e com rápidos contra-ataques que poderiam dar golo, Queiroz decide “inovar” e colocar em campo Danny retirando poder de fogo lá à frente, onde Hugo Almeida e Cristiano Ronaldo estavam a incomodar, e de que maneira, a defensiva Espanhola. A Espanha pôde subir mais os seus centrais, o que possibilitou o golo de Villa… em fora-de-jogo. O árbitro está totalmente tapado pela muralha defensiva portuguesa e o fiscal estava mal colocado, a acompanhar a trajectória da bola e não o último defesa, o que valeu o golo e a eliminação de Portugal, que após esse lance se desorientou totalmente.
Mais uma vez Portugal não é protegido em grandes competições, como já acontecera no Euro’2000 com a polémica mão de Abel Xavier, em 2006, com um penalty sobre Henry após uma falta claríssima que o árbitro não assinalou a favor de Portugal ou quando Ballack empurra Paulo Ferreira em 2008. Portugal é um país pequeno e com pouca expressão no Mundo e nem mesmo o melhor do Mundo, Cristiano Ronaldo (ou segundo melhor do Mundo para alguns), faz com que a equipa cresça.
É verdade que os jogadores reagiram mal à derrota com Espanha, frustração sentida por Cristiano Ronaldo, que a expressou efusivamente após o jogo com a Espanha, dando uma péssima imagem de capitão de equipa; contudo, Portugal tem vindo a ser eliminado competição atrás de competição por “erros” sucessivos de equipas de arbitragem que não prestigiam o futebol. Quando a Inglaterra marcou um golo que não contou, todos foram a favor do chip para a baliza, pois a Inglaterra nunca poderia ser prejudicada daquela forma. Contudo, quando o México (e agora Portugal) sofrem um golo em offside, não se discute o recurso a imagens televisivas, mesmo que elas existam em tempo real para quem assiste ao jogo in loco!
Contudo, Portugal tinha selecção para fazer bem melhor do que aquilo que fez, mas Queiroz não conseguiu encher de esperanças os Portugueses, muitos descrentes se quer, da passagem no Grupo G; no entanto, jogo a jogo, Portugal poderia ter saído sempre vencedor, assim nos deixassem praticar o nosso melhor futebol. É frustrante para jogadores como o Ronaldo que vêm nas escolhas do treinador jogadores que estão de fora que poderiam ajudar a selecção e galvanizá-la para outros resultados – aí sim, Queiroz tem culpa e tem que assumir as escolhas que fez!
Quanto ao futuro, Portugal terá sempre de “disciplinar” Cristiano Ronaldo, ainda demasiado verde para acarretar com a braçadeira de capitão, cargo que R.Carvalho, Bruno Alves ou até mesmo Eduardo mostraram ao longo do Mundial o estofo suficiente para tal. Surgiram dois bons valores para o futuro próximo e, quem sabe, que brilharão ainda mais no próximo Europeu – F.Coentrão e Eduardo. Portugal demonstrou que não precisa de naturalizados para ter a sua melhor equipa, pois foi mesmo frente à Coreia do Norte, com onze portugueses, que conseguiu entrar para a história dos Mundiais. Carlos Queiroz, que claramente não será despedido nem renunciará ao cargo, terá de descobrir internamente uma solução para trinco, pois Pedro Mendes não será solução por muitos mais anos e Pepe é defesa central, e o eterno problema do avançado goleador, disfarçado com o empenho de Hugo Almeida, que para uma selecção como a portuguesa continua a ser pouco. Carlos Queiroz terá ainda de aproveitar o que há de melhor em termos de selecções jovens para que consiga uma renovação ao nível do que a Alemanha tem demonstrado ao longo deste campeonato do Mundo. De facto, Varela, Nani, Ruben Micael, Bosingwa, João Moutinho, Rúben Amorim e Carlos Martins terão de ser potenciados para que num futuro próximo possam acompanhar os grandes jogos que esta selecção tem obrigação de realizar!


4 Comentários